terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"Abraça tua loucura antes que seja tarde demais."

"Mas estávamos ali, como dois sobreviventes - para usar a linguagem que ele provavelmente teria, se falássemos disso - de um naufrágio. Ou para usar a minha própria linguagem, essa de gente que vive amontoada entre outras gentes, mesmo quando se retira, porque a vida incha lá fora, invadindo as janelas fechadas, sobreviventes de uma série de fracassos iguais e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas. Eu podia falar lento, deixando o que dizia escorregar da garganta para a língua, da língua em movimento contra o céu da boca para os lábios, que com o ar soprado entre os dentes formaria palavras um pouco ao acaso, sem muita importância..."
(O marinheiro, Caio F.)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Havia tanta coisa pra te falar, mas as palavras voam, não é? E o tempo come. O calor dos teus olhos derrete até o que eu tinha pra lhe dizer e era tão urgente!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

meu peito inflado.

É inegável a paz de se estar em volta da roda toda e não ter olhos pra ninguém além daquele núcleo quente e próximo que faz o movimento de se mexer os lábios o mais simples, e as palavras voam, voam na velocidade em que o coração bate, tão rápido e feliz por estar ali. Demonstrar qualquer coisa já é mais com olhar do que com qualquer palavra.
E qualquer coisa que provoque os olhos, os ouvidos ou a boca, já faz estremecer a pele. Tantas e tantas sensações e tantos e tantos toques de vida. No asfalto não sobrará os pedaços de cores do carnaval, só no nosso peito como resquícios desses dias todos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

pra quem sabe quem.

Menina, aumenta a roda do vestido! E gira rápido, rápido... sem medo!
Só não te esquece de ouvir o vento
Ele pode assoprar nos teus ouvidos,
te roubar o tento...

Só não esquece que o mundo todo é teu amigo - nos pequenos cantos
Já nos grandes, toma tento!
Cuida com os olhos e os ouvidos, mas nem por isso deixe de girar...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

As pessoas mais bonitas?

Aquelas que tateiam o mundo como formigas, riscando a terra até que o mundo se remexa todo só pela presença delas.
Risc, risc, risc...

desabafo.

Garganta seca de tanto engolir o que não consigo tirar de mim (e nem posso).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

seco.

Nossa condição de sair batida entre as pedras, com as rachaduras costuradas à dente. Não há sangue pra molhar as feridas hoje. Meu coração bate como um movimento contínuo do qual não consegue se desligar, não há sangue, não há água, não há o que circule no peito. Além de uma ferida que insiste em aumentar. E o corpo amortecido insiste em penar no vazio. Seria demais pedir pulsos rasgados pra alimentar essa alma calada. Eu já quero me alimentar de mim só pra não te deixar com os olhos secos de tão profundo que eles sempre alcançam. Teus olhos que avançam sobre o infinito e não quero tirá-los dessa imensidão azul que brilha em ti tão fundo. Se me perguntassem a cor dos teus olhos eu diria azuis ou aquele preto infinito de girassóis. Te prometo um abraço fundo ao término do latejar, quando o sangue já circulará, ao impossível de se estancar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

manhã azul-amarela.

No meio das lembranças que a mente insiste em trazer, vem aquelas que paralisam o tempo.

É como o tempo de manhã, como o pêlo do cachorro macio que acabou de acordar, pés descalços no piso gelado pra ver o rio caminhar, dia assim, nascendo, florescendo, mesmo que embaixo dos lençóis, feito minhoca que sai da terra pra encontrar o sol por talvez pouco tempo e se torna único. Tem gente que faz raiar tanto o sol que a gente sente ele pra sempre.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Palimpsesto

Na boca um sabor de memória
como as paredes daquela casa fazem
quando fecho as portas e me vejo dentro
dentro de outro tempo,
dentro de outra casa,
dentro de mim.

Me desfaço em espaços de tempo...
e às vezes alimento até um certo receio de me perder.

Desnudo a minha pele
como um palimpsesto.
E de repente é tudo exposto...

Veias, artérias, cicatrizes
das mais fundas
das mais carregadas
cheiro
gosto
tato

Tato doce e lento
como eu sempre caminho pelas coisas
Um dia, um amor me disse que eu penetrava as coisas com a pele
mas lento, bem lento...
como se elas pudessem ficar guardadas no tempo.
Eu agarro as coisas no tempo das coisas
mas elas permanecem no infinito...

Os lugares vibram, mas alguns são tão secos...
E doem fundo em nós.

Parede cor de tomate maduro rasgando...
Vê, vê ali as cicatrizes da parede: palimpsesto.

Palha seca,
Porta rasgada da memória,
Que eu entro e me perco.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Queria me espremer, me esconder no canto, só pra não ser o alvo e párar de acumular um pouco tantas feridas. Tento tanto, que até esqueci o que você formou em mim. Ficou tão breve.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Parece que aqueles olhos de fogos avançam sobre o corpo e queimam dentro da gente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

é, pois é, é.

É a falta de entrega.
Não, não é a falta de entrega.
É a falta de rumo.
Não, não é a falta de rumo.

é a dúvida.
e só, a dúvida, entendeu?

A dúvida que bate na mente, enquanto há paz, mas não há paz.
São os cacos batendo e batendo e tentando dizer o que fazer enquanto está tudo confuso ou claro demais.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eu me seguro nas pontas dos dedos, mas continuo de pé.

Eu sei que o mar não vai curar. Eu sei que as noites agitadas, iluminadas e cheias de riso não vão curar. Eu sei que as ruas, as praças e vários outros lugares vão ser sempre cheios de marcas. Que alguns lugares podem carregar espinhos que ferem exatamente as cicatrizes mais profundas. Que os sonhos vão carregar as coisas pra perto de mim denovo, tudo que eu afasto da minha mente para não pensar, porque dói e faz um corte tão profundo, que nessas horas meu respiro é fraco e a minha garganta seca. Eu fico pensando naquela frase "não vai passar, mas vai melhorar" e eu sei que é sempre assim. A dor às vezes não precisa de chuva pra latejar tanto, ela só vem e dorme agarrada na gente e nem água pode fazer ela sumir. Mas eu sei que logo venta e ela poderá adormecer longe de mim.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Peito de ferro.

As dezenas de pessoas ao redor, a música pulsando tão forte no corpo, envolvido em suor, no meio da fumaça e da luz que gira e ilumina as dezenas de rosto no mesmo movimento, no mesmo espaço, respirando o mesmo ar. O ar que me falta e que não é lá que eu vou conseguir encontrar.
Segurou a minha mão e me disse que não é lugar para sentir o aperto no peito. É o último lugar para se sentir aperto no mundo inteiro. Aperto a gente sente quando o peito dói uma dor seca e intensa depois de tanto que a vida escorreu pelo corpo, depois de ter vibrado tanto e ter girado tanto, aperto é dor de perda. É sentir diferente desse meio que só é meio porque está todo mundo no meio da roda e ninguém consegue ver o que acontece por fora. Ninguém enxerga as dores que escorrem pelo chão enquanto todos dançam.

"Na vocação para a vida, está incluído o amor, inútil tentar disfarçar, amamos a vida. Lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o furor mas uma certa dose de cólera, furor e coléra. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida."
(Lygia Fagundes Telles)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

mais 365 sóis.

Final de ano é virar folha de calendário que a gente inventou. É pensar cronologicamente nos doze meses que a gente usa pra organizar a vida. Acho que tudo que eu quero no próximo ano é fugir disso: a vida cronometrada em segundos, minutos, horas, dias, meses e anos.

Quero viver dessa mutação, dessa vida fluindo sem sentido, viver como diria a Clarice "com a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

férias.

No meu quarto guardo uma concha, visível sempre antes das horas de sono, para me trazer um pedacinho do mar. Pelas paredes, guardo em ilustrações e imagens pedaços de onde já pisei. Mas talvez mais tatéis que qualquer coisa dessas, sejam meus olhos, que conseguem passar por tudo isso e avançar sobre as minhas memórias me levando os pés pra fora daqui. Tenho quatro paredes que para mim são uma porta para o mundo. E por esse caminho eu sempre sigo de pés descalços. As janelas que levam à minha alma ao mesmo tempo que carregam o olhar pra dentro, encontram um pedaço de mim em qualquer lugar e coisa que meus olhos possam tocar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

do impossível.

Uma inundação no peito e alguém nos pede para colocar isso em palavras.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

narciso;

Meus olhos já tem calos para essas tuas mentiras tolas, nessa tentativa escassa de tentar passar o tempo e a vida. Vive a vida, vive! É o máximo que posso te dizer. Mas vive com a coragem de quem anda sobre o fio da navalha. Com quem tem coragem de manter o peito aberto. Já era tempo de abrires os olhos para o resto do mundo, antes de escondê-los sempre pra dentro do teu peito, tão cheio de afetos emoldurados em vidros quebrados. Poesia só me faz sentido se é feita por quem vive, definhando, amando, vibrando, por quem sente e não chora escondido no colo do pai. Não vale nada pra quem anda de sapatos amarrados, com a corda no pescoço no meio do salão. Grita que tu gritas pra ti mesmo e só a ti queres ouvir. Já cansei tanto de ter tuas palavras que me calo por ti.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Confesso (2).

Estou cansada desse ritual social, de todas essas conversas que se desenrolam do mesmo jeito sempre, nas mesas dos mesmos bares, no meio do mesmo círculo de pessoas, que talvez mude uma ou duas, mas saem as mesmas histórias, as mesmas conversas, os mesmos assuntos. Qualquer assunto que há entre todos uma certa ligação, mas na verdade estão todos tão distantes de qualquer coisa que se sinta dentro do peito. Risos tão altos e tão condicionados por esse ritual todo.
Estou cansada dessa importância toda ao círculo e a diversão que podem sucumbir uma relação próxima. De ter como desculpa sempre uma falta de consciência.
Estou sem paciência com metade do mundo e talvez isso seja só uma necessidade urgente de paz.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Confesso.

E hoje, eu só precisava de alguém que ouvisse com o coração. Porque às vezes é indescritível o que a gente sente, e um emaranhado de palavras que possa se tentar expressar parece pequeno e confuso demais diante do que se passa dentro.