domingo, 7 de fevereiro de 2010

seco.

Nossa condição de sair batida entre as pedras, com as rachaduras costuradas à dente. Não há sangue pra molhar as feridas hoje. Meu coração bate como um movimento contínuo do qual não consegue se desligar, não há sangue, não há água, não há o que circule no peito. Além de uma ferida que insiste em aumentar. E o corpo amortecido insiste em penar no vazio. Seria demais pedir pulsos rasgados pra alimentar essa alma calada. Eu já quero me alimentar de mim só pra não te deixar com os olhos secos de tão profundo que eles sempre alcançam. Teus olhos que avançam sobre o infinito e não quero tirá-los dessa imensidão azul que brilha em ti tão fundo. Se me perguntassem a cor dos teus olhos eu diria azuis ou aquele preto infinito de girassóis. Te prometo um abraço fundo ao término do latejar, quando o sangue já circulará, ao impossível de se estancar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

manhã azul-amarela.

No meio das lembranças que a mente insiste em trazer, vem aquelas que paralisam o tempo.

É como o tempo de manhã, como o pêlo do cachorro macio que acabou de acordar, pés descalços no piso gelado pra ver o rio caminhar, dia assim, nascendo, florescendo, mesmo que embaixo dos lençóis, feito minhoca que sai da terra pra encontrar o sol por talvez pouco tempo e se torna único. Tem gente que faz raiar tanto o sol que a gente sente ele pra sempre.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Palimpsesto

Na boca um sabor de memória
como as paredes daquela casa fazem
quando fecho as portas e me vejo dentro
dentro de outro tempo,
dentro de outra casa,
dentro de mim.

Me desfaço em espaços de tempo...
e às vezes alimento até um certo receio de me perder.

Desnudo a minha pele
como um palimpsesto.
E de repente é tudo exposto...

Veias, artérias, cicatrizes
das mais fundas
das mais carregadas
cheiro
gosto
tato

Tato doce e lento
como eu sempre caminho pelas coisas
Um dia, um amor me disse que eu penetrava as coisas com a pele
mas lento, bem lento...
como se elas pudessem ficar guardadas no tempo.
Eu agarro as coisas no tempo das coisas
mas elas permanecem no infinito...

Os lugares vibram, mas alguns são tão secos...
E doem fundo em nós.

Parede cor de tomate maduro rasgando...
Vê, vê ali as cicatrizes da parede: palimpsesto.

Palha seca,
Porta rasgada da memória,
Que eu entro e me perco.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Queria me espremer, me esconder no canto, só pra não ser o alvo e párar de acumular um pouco tantas feridas. Tento tanto, que até esqueci o que você formou em mim. Ficou tão breve.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Parece que aqueles olhos de fogos avançam sobre o corpo e queimam dentro da gente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

é, pois é, é.

É a falta de entrega.
Não, não é a falta de entrega.
É a falta de rumo.
Não, não é a falta de rumo.

é a dúvida.
e só, a dúvida, entendeu?

A dúvida que bate na mente, enquanto há paz, mas não há paz.
São os cacos batendo e batendo e tentando dizer o que fazer enquanto está tudo confuso ou claro demais.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eu me seguro nas pontas dos dedos, mas continuo de pé.

Eu sei que o mar não vai curar. Eu sei que as noites agitadas, iluminadas e cheias de riso não vão curar. Eu sei que as ruas, as praças e vários outros lugares vão ser sempre cheios de marcas. Que alguns lugares podem carregar espinhos que ferem exatamente as cicatrizes mais profundas. Que os sonhos vão carregar as coisas pra perto de mim denovo, tudo que eu afasto da minha mente para não pensar, porque dói e faz um corte tão profundo, que nessas horas meu respiro é fraco e a minha garganta seca. Eu fico pensando naquela frase "não vai passar, mas vai melhorar" e eu sei que é sempre assim. A dor às vezes não precisa de chuva pra latejar tanto, ela só vem e dorme agarrada na gente e nem água pode fazer ela sumir. Mas eu sei que logo venta e ela poderá adormecer longe de mim.