É a falta de entrega.
Não, não é a falta de entrega.
É a falta de rumo.
Não, não é a falta de rumo.
é a dúvida.
e só, a dúvida, entendeu?
A dúvida que bate na mente, enquanto há paz, mas não há paz.
São os cacos batendo e batendo e tentando dizer o que fazer enquanto está tudo confuso ou claro demais.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Eu me seguro nas pontas dos dedos, mas continuo de pé.
Eu sei que o mar não vai curar. Eu sei que as noites agitadas, iluminadas e cheias de riso não vão curar. Eu sei que as ruas, as praças e vários outros lugares vão ser sempre cheios de marcas. Que alguns lugares podem carregar espinhos que ferem exatamente as cicatrizes mais profundas. Que os sonhos vão carregar as coisas pra perto de mim denovo, tudo que eu afasto da minha mente para não pensar, porque dói e faz um corte tão profundo, que nessas horas meu respiro é fraco e a minha garganta seca. Eu fico pensando naquela frase "não vai passar, mas vai melhorar" e eu sei que é sempre assim. A dor às vezes não precisa de chuva pra latejar tanto, ela só vem e dorme agarrada na gente e nem água pode fazer ela sumir. Mas eu sei que logo venta e ela poderá adormecer longe de mim.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Peito de ferro.
As dezenas de pessoas ao redor, a música pulsando tão forte no corpo, envolvido em suor, no meio da fumaça e da luz que gira e ilumina as dezenas de rosto no mesmo movimento, no mesmo espaço, respirando o mesmo ar. O ar que me falta e que não é lá que eu vou conseguir encontrar.
Segurou a minha mão e me disse que não é lugar para sentir o aperto no peito. É o último lugar para se sentir aperto no mundo inteiro. Aperto a gente sente quando o peito dói uma dor seca e intensa depois de tanto que a vida escorreu pelo corpo, depois de ter vibrado tanto e ter girado tanto, aperto é dor de perda. É sentir diferente desse meio que só é meio porque está todo mundo no meio da roda e ninguém consegue ver o que acontece por fora. Ninguém enxerga as dores que escorrem pelo chão enquanto todos dançam.
"Na vocação para a vida, está incluído o amor, inútil tentar disfarçar, amamos a vida. Lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o furor mas uma certa dose de cólera, furor e coléra. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida."
(Lygia Fagundes Telles)
(Lygia Fagundes Telles)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
mais 365 sóis.
Final de ano é virar folha de calendário que a gente inventou. É pensar cronologicamente nos doze meses que a gente usa pra organizar a vida. Acho que tudo que eu quero no próximo ano é fugir disso: a vida cronometrada em segundos, minutos, horas, dias, meses e anos.
Quero viver dessa mutação, dessa vida fluindo sem sentido, viver como diria a Clarice "com a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa."
Quero viver dessa mutação, dessa vida fluindo sem sentido, viver como diria a Clarice "com a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa."
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
férias.
No meu quarto guardo uma concha, visível sempre antes das horas de sono, para me trazer um pedacinho do mar. Pelas paredes, guardo em ilustrações e imagens pedaços de onde já pisei. Mas talvez mais tatéis que qualquer coisa dessas, sejam meus olhos, que conseguem passar por tudo isso e avançar sobre as minhas memórias me levando os pés pra fora daqui. Tenho quatro paredes que para mim são uma porta para o mundo. E por esse caminho eu sempre sigo de pés descalços. As janelas que levam à minha alma ao mesmo tempo que carregam o olhar pra dentro, encontram um pedaço de mim em qualquer lugar e coisa que meus olhos possam tocar.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
narciso;
Meus olhos já tem calos para essas tuas mentiras tolas, nessa tentativa escassa de tentar passar o tempo e a vida. Vive a vida, vive! É o máximo que posso te dizer. Mas vive com a coragem de quem anda sobre o fio da navalha. Com quem tem coragem de manter o peito aberto. Já era tempo de abrires os olhos para o resto do mundo, antes de escondê-los sempre pra dentro do teu peito, tão cheio de afetos emoldurados em vidros quebrados. Poesia só me faz sentido se é feita por quem vive, definhando, amando, vibrando, por quem sente e não chora escondido no colo do pai. Não vale nada pra quem anda de sapatos amarrados, com a corda no pescoço no meio do salão. Grita que tu gritas pra ti mesmo e só a ti queres ouvir. Já cansei tanto de ter tuas palavras que me calo por ti.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Confesso (2).
Estou cansada desse ritual social, de todas essas conversas que se desenrolam do mesmo jeito sempre, nas mesas dos mesmos bares, no meio do mesmo círculo de pessoas, que talvez mude uma ou duas, mas saem as mesmas histórias, as mesmas conversas, os mesmos assuntos. Qualquer assunto que há entre todos uma certa ligação, mas na verdade estão todos tão distantes de qualquer coisa que se sinta dentro do peito. Risos tão altos e tão condicionados por esse ritual todo.
Estou cansada dessa importância toda ao círculo e a diversão que podem sucumbir uma relação próxima. De ter como desculpa sempre uma falta de consciência.
Estou sem paciência com metade do mundo e talvez isso seja só uma necessidade urgente de paz.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Confesso.
E hoje, eu só precisava de alguém que ouvisse com o coração. Porque às vezes é indescritível o que a gente sente, e um emaranhado de palavras que possa se tentar expressar parece pequeno e confuso demais diante do que se passa dentro.
domingo, 29 de novembro de 2009
ponto de mutação;
Nessa doce tarde de novembro, a pulsação sobrepôs a pele. Era tão forte que me sentia rasgar. Eu sentia o tum, tum, tum das batidas e sabia que já não poderia suportar em mim. Tanto, mas tanto, mas tanto... Eu te digo que se eu sorria era de amor e se eu tenho algo a recordar, é por algo que se viveu, por vontade de viver, longe de qualquer autoafirmação de estupidez.
É por isso que eu posso lacrimejar nessa madrugada sem fim e entender a imensidão desde o início da linha. Finalmente, sem corte algum. Se hoje eu juntei o ontem e o hoje, é porque dessas imensidões é que esse sangue verte quente. Eu já sou mais que o ontem e o ontem do ontem, e ainda sou início, então eu pulso, sem querer saber onde vou parar.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Gaiola de vidro.
A gaiola de vidro invade as ruas
Espelhos, concretos e fios
se erguem sobre
a cidade das memórias
Espelhos, concretos e fios
se erguem sobre
a cidade das memórias
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Me dizem que vento não abre tranca de porta.
Já não consegue ser mais do que isso: um coração bandido, largado, debaixo da cama. Se afunda na lama, clama na frente do espelho. Pede silêncio - sem um ruído, sem um sinal! - para os próprios ouvidos. Cala-te e cala-me. Deixa a boca abrir sem pestanejar, mas cala os ouvidos, que não se quer ouvir a volta. Todas as palavras jogadas, largadas aos quatro cantos, aos quatro ventos e só tampa os ouvidos.
Som de surdo é som de coração, e a esse ninguém engana.
Som de surdo é som de coração, e a esse ninguém engana.
domingo, 15 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Sinto essa garganta arranhando, a cabeça pesada, os olhos secos. Os olhos secos, tão secos, e sem brilho. Por mais azul que possa estar o céu. Minha cabeça pesa sobre o meu corpo e eu já não vejo mais nada. O sangue corre tão espesso, quase me carrega com ele enquanto escorre. O corpo às vezes parece uma coisa dura e seca, do qual não fazemos parte. Afinal, deveria ser algo a nos acompanhar. Mas nos transportamos em pensamento, e ele continua aqui. Pisamos outro chão, e ele continua nesse piso frio e áspero. Às vezes precisamos ser somente uma partícula pulsante, imersa sob todo o resto, e nos vemos como esse grande boneco batendo uns nos outros, sem ao menos reparar.
"Mas foi quando eu ainda nem havia dito nada, foi quando eu ainda nem te conhecia, foi na fresta que, por descuido, esqueci aberta... que teus olhos doeram em mim, caíram em mim e me mancharam de tinta. Não sei o que era ali dentro deles, se a minha tristeza ou a tua, mas nunca vi olhos tão claros, nem outros que ofuscassem tanto a minha vida. "
(Rita Apoena)
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