quarta-feira, 19 de agosto de 2009

minha doce terceira pessoa.

E a última vez que eu fui lá, que é há pouco tempo, mas sempre pra mim parece longe, porque sempre quero passar com ela mais e mais tempo, e então, a última vez que fui lá, estavam construindo um prédio torto e feio na frente da varanda dela. E ela me dizendo que só não queria janelas daquele lado do prédio, porque a última coisa que ela queria era alguém a espiá-la pela janela. E eu fiquei só pensando que a minha tristeza ia ser ficar sem o horizonte daquela varanda, de onde eu percebi pela primeira vez que eu precisava usar óculos, com a gente sentada na mureta da varanda tentando ler as fachadas das casas lá em cima do morro...
E eu era pequena, e podia querer brincar, ou estar correndo pela casa, mas a minha felicidade era mesmo que às nove horas da noite eu estaria lá sentada nas cadeiras de ferro antigas ao lado dela, conversando sobre alguma coisa e olhando o horizonte da cidade que é minha e não é.
E eu sempre tenho muito medo de escrever sobre ela, e já me vem uma vontade louca de chorar, porque ah, a última vez que escrevi sobre alguém como ela, a pessoa se foi depois de poucos meses... e se acontecer isso com ela ah, aquela cidade que é minha e não é, não vai fazer sentido algum. Vai ser buraco fundo e vazio, e andar lento pela cidade não vai ter mais graça nenhuma... Entrar naquela casa seria um bege vazio.
Ah o barulho daquele pequeno portão, que passa tanta gente e todo mundo deixa aberto, e agora ela fecha porque de uns anos pra cá ficou perigoso, e olha como o mundo anda rápido... agora é perigoso e ela tem alarme pela casa e eu fico sempre reparando nisso quando vou lá e pensando como o tempo anda. E eu sempre quero ver o rosto dela primeiro que tudo, pra ver como o tempo passou, pra me reconhecer nele... pra lembrar de uma das certezas da minha vida.
Ah a doce loucura, a doce loucura, e o cuidado e a preocupação, de um jeito tão dela! Tão dela!
Ela não gosta muito de falar ao mesmo tempo que fala, e ela me liga às vezes só pra me contar de algo que ela leu no jornal e pode ser pra mim. E os jornais, ah! Da última vez que eu fui também descobri que ela guarda os meus jornais dobradinhos, com um elástico, tão bonito do jeito dela! E nem sei se ela leu, esqueci de perguntar, mas abrir a gaveta e ver os jornais assim dobrados, em um monte pequeno, foi tão bonito...
Me vem um choro tão engasgado quando eu penso nela... A minha felicidade foi voltar para a antiga cidade a agora ficar tão perto dela, e pode fugir de vez em quando pra lá, não mais como antes, que era a cada ano e depois a cada dois anos, agora eu posso fugir pra lá quando quiser... mas ao mesmo tempo cada vez que eu vou parece que eu tenho menos tempo, e mais saudade, e que preciso aproveitar mais e mais a voz doce dela. E eu sempre vou embora pensando que preciso voltar lá e sentar naquela mesa e conversar sobre qualquer coisa e sorrir só de olhar ela contando sobre tudo...

2 comentários:

Juliana disse...

as lágrimas brilham nos meus olhos agora... não tenha medo; as estrelas continuam brilhando milhares de anos após fisicamente apagarem-se, o mesmo acontece com as nossas. muitas e muitas e muitas pessoas virão e irão do prédio torto e feio e espiarão essa estrela até que ela se apague.

cláudia i, vetter disse...

eu sinto nesse momento, a sinestesia dentro de mim, como a origem da saudade que já te contei um dia.

como um balanço azul, brindando a noite porque na sua cor embala o tempo nesse balanço, nesse tempo passando, nesse equilíbrio figurado perfeito quando falamos em alto e bom tom do amor.
do mais verdadeiro e inesquecível, do que nunca ninguém vai mudar, mesmo que ninguém exista para viver essa para sempre.

eu lhe disse, sentir fundo é o modo de guardar isso, e com o medo mesmo, e com a pele fervilhando poros, compreendendo a vivência que é mesmo essa miscigenação do bruto e do efêmero.
porque até para o teu medo, estes braços estarão...
porque estarão.
pra ti, de todo meio.

lindo tati, lindo!

és mesmo imensa.